
A Câmara Municipal de Glória de Dourados realizou, na noite desta segunda-feira (06 de abril de 2026), uma sessão solene em homenagem ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo. O evento teve início às 19 horas e reuniu autoridades, profissionais da educação e da saúde, além de mães atípicas e membros da comunidade.

Durante a solenidade, a professora e mãe atípica Simone Almeida de Oliveira Hidalgo destacou a importância de espaços de fala e escuta para as famílias.
“Quero começar agradecendo o convite para estar aqui hoje com a oportunidade de dar voz a uma realidade que muitas vezes não é vista ou ouvida como deveria. Precisamos desses momentos de fala”, afirmou.
Simone relatou os desafios da maternidade atípica, ressaltando que cada criança dentro do espectro possui características próprias.
“Ser mãe atípica é uma caminhada muitas vezes solitária e profundamente individual. Cada criança é única, com seu tempo, necessidades e conquistas”, disse.

Na sequência, a psicóloga e mãe Vanessa Maria Rocha Ferreira Sutier trouxe um relato emocionante e detalhado sobre sua vivência.
“Sou mãe do Vítor Emanuel, de 8 anos, diagnosticado com autismo aos quatro anos, mas os sinais começaram ainda no primeiro ano de vida, quando ele apresentou regressão no desenvolvimento”, relatou.
Ela destacou as dificuldades no acesso ao diagnóstico e tratamento.
“Mesmo com plano de saúde, foi um processo demorado. Para quem depende do SUS, o desafio é ainda maior”, afirmou.
Vanessa também chamou atenção para a necessidade de terapias e apoio contínuo.
“As terapias são fundamentais, mas muitas famílias não conseguem acesso. O atendimento ainda é limitado e insuficiente”, Precisamos de mais estrutura e profissionais”, disse.

Também fez uso da palavra a secretária municipal de Educação, Rafaela da Silva Rosas, que apresentou um panorama da realidade local e detalhou ações em andamento no município.
“Hoje temos 106 crianças com necessidades especiais na rede municipal, sendo 46 com diagnóstico de autismo. Sabemos que esse número pode ser ainda maior, pois há crianças que ainda não possuem laudo”, destacou.
A secretária explicou que, ao assumir a pasta, identificou a necessidade de estruturar melhor a educação especial no município.
“Quando assumi a Secretaria, percebi que não havia uma equipe específica para trabalhar com a educação especial. Hoje contamos com uma equipe formada para atender essa demanda, o que já representa um avanço importante”, afirmou.
Rafaela também abordou mudanças na legislação e os impactos nas escolas.
“Tivemos alterações que substituíram o professor de apoio por profissionais de apoio. Isso trouxe desafios, principalmente na qualificação desses profissionais, mas buscamos manter esse atendimento e valorizar esses trabalhadores”, explicou.
Outro ponto destacado foi a necessidade de ampliar a inclusão para além do ambiente escolar.
“A inclusão não acontece só dentro da escola. Ela precisa estar presente em toda a sociedade, nos mercados, nas farmácias, nos espaços públicos”, disse.
Nesse sentido, a secretária fez um apelo por medidas práticas no município.
“Precisamos de caixas preferenciais funcionando, vagas de estacionamento adequadas e respeito no atendimento. Muitas vezes essas crianças entram em crise por causa do ambiente e precisam de um atendimento mais rápido e sensível”, pontuou.
Rafaela também falou sobre melhorias no atendimento educacional.
“Estamos reorganizando o atendimento das salas de recursos, trazendo para o mesmo turno das aulas, facilitando para as famílias que não conseguem retornar no contraturno”, explicou.
Ela ainda mencionou ações em parceria com a área da saúde e projetos futuros.
“Já iniciamos diálogo com a Secretaria de Saúde para ampliar o atendimento e colocar em funcionamento espaços que hoje estão prontos, mas ainda sem uso. Também estamos planejando um espaço sensorial para as crianças no município”, afirmou.
A secretária destacou ainda a importância da escuta às famílias.
“Essas mães chegam muitas vezes machucadas, cansadas. Precisamos ouvir, acolher e construir soluções junto com elas”, disse.

Encerrando a sessão, a presidente da Câmara, Lucineia M. de Oliveira Nogueira, fez um discurso marcado por sensibilidade, fé e defesa da inclusão.
A presidente iniciou cumprimentando autoridades, servidores e a população presente, além dos ouvintes e internautas que acompanhavam a sessão. Em seguida, trouxe uma reflexão baseada no Salmo 139, destacando a singularidade de cada ser humano.
“Eu te agradeço por me teres feito de modo tão extraordinário. Tuas obras são maravilhosas. Esse texto nos lembra que cada pessoa é única, que não há erro na forma de ser, mas propósito, beleza e identidade em cada detalhe”, declarou.
Lucineia reforçou que o autismo deve ser compreendido com respeito e empatia.
“Não podemos tratar o autismo como algo que exclui. Precisamos enxergar com um olhar mais humano, entendendo que cada pessoa tem sua forma de ser e de se desenvolver”, afirmou.
Ela também destacou a importância das políticas públicas e do papel do poder público.
“Falar de autismo é falar de inclusão, é falar de acesso à educação de qualidade e atendimento especializado. Muitas mães não têm condições de garantir isso sozinhas, e é nosso dever buscar soluções”, disse.
Durante sua fala, a presidente mencionou iniciativas e possibilidades para o município.
“Já existem discussões sobre a criação de espaços e centros de atendimento especializado, que possam oferecer mais suporte às famílias e às crianças aqui no município”, pontuou.
Lucineia também lamentou a ausência de mais famílias no plenário, destacando a necessidade de ampliar a informação.
“Acredito que ainda falta informação. Muitas mães gostariam de estar aqui, mas não tiveram essa oportunidade. Precisamos ampliar esse diálogo”, afirmou.
Em um momento de emoção, a presidente fez uma homenagem às mães atípicas.
“Ser mãe de uma criança autista é trilhar um caminho único, muitas vezes cheio de desafios, cansaço e incompreensão, mas também cheio de amor. Vocês são fortes e merecem todo o nosso respeito”, declarou.
Ela ainda destacou a importância da rede de apoio e da presença familiar.
“Muitas mães enfrentam essa jornada sozinhas, e isso torna tudo ainda mais difícil. Por isso, é fundamental que exista apoio, tanto da família quanto do poder público e da sociedade”, disse.
Ao final, reforçou o compromisso da Câmara com a causa.
“Essa Casa está de portas abertas para ouvir vocês, para dialogar e buscar caminhos. A inclusão não é um favor, é um direito, e respeitar as diferenças nos torna mais humanos”, concluiu.
A sessão solene reforçou a importância do diálogo entre poder público e comunidade, além da necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à inclusão. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, tem como objetivo dar visibilidade à causa e combater o preconceito.








