Por Izabela Sanchez
Terenas da Terra Indígena Taunay Ipegue, que organizam praticamente sozinhos as barreiras sanitárias para evitar contágio do novo coronavírus (Foto: Divulgação)
Em tese, o regime de um médico do polo base de Aquidauana, serviço de saúde da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), é de 40h, das 7h às 11 e das 13h às 17h, de segunda a sexta-feira. Na prática, o expediente do único médico do polo base começa às 7h e ultrapassa as 18h todos os dias, e quando muito, há um pequeno intervalo para o almoço, que na maior parte dos dias se come frio dentro das aldeias. Há dois meses há apenas um médico para percorrer, sozinho, 11 aldeias nas Terras Indígenas da região, e um total de 7,9 mil pessoas.
Há anos sofrendo com sucateamento, a Sesai chega ao ápice da falta de assistência em plena pandemia de coronavírus no estado com a segunda maior população indígena do Brasil, mas com apenas um Dsei (Distrito Sanitário de Saúde Indígena). Se o único médico que atende às comunidades indígenas de Aquidauana ficar doente - risco entre os profissionais em meio à pandemia - a matemática básica mostra que não haverá atendimento.
Outro médico que dividia o trabalho pediu demissão porque passou em um concurso e desde então, há apenas um profissional. O que hoje trabalha no polo foi contratado pelo programa Mais Médicos, do governo federal, por um salário de R$ 12.386,50 para atendimento integral, conforme apurou o Campo Grande News.
Nesta região, os profissionais de saúde, os poucos que restam, percorrem sozinhos distâncias diárias de, no mínimo, 150 km, a bordo de viaturas sucateadas da Sesai, mas a distância média entre a área das aldeias e a cidade pode ser maior.
Dionedison Terena, 42, é natural de uma das aldeias atendidas, a aldeia Bananal, mas hoje vive na cidade de Aquidauana e tem recebido relato dos amigos e da família com as dificuldades de atendimento e a rotina exaustiva dos profissionais.
“A comunidade reclama muito de não conseguir atendimento médico”, comenta. Ele cita a exaustão da única enfermeira (há duas profissionais dessa área no atendimento, mas uma está doente e afastada desde março) e da única nutricionista que atende toda a região.
Terra Indígena Taunay Ipegue, durante assembleia terena em 2019 (Foto: Paulo Francis)
É o que também explica o professor Alceri Marques, 45, ex-cacique da aldeia Lagoinha.
- CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS